Acadêmica do Curso de Tecnologia em Fotografia da Feevale.
UM DIA
um dia from Mona Locks on Vimeo.
Vídeo selecionado no 7o. Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre/2013.
UM DIA
Vídeo, 2´38´´, 2013
Já há algum tempo venho fotografando manequins simplesmente pela dificuldade que tenho em retratar pessoas. Possuo uma loja e comercializo esse material, o que facilita muito para mim. Quando comecei essa série eu conseguia identificar pessoas reais naqueles “seres” inanimados. Levei esse material para
aula - fotografias de dois ou três anos atrás. Minha professora indicou-me um
texto do filósofo italiano Giorgio Agamben, que fala das experiências que o
homem moderno tem (ou não) no seu dia-a-dia.
Surgiu então a ideia de criar uma “estória”. Escolhi
um manequim, dei-lhe um nome, “Verônica”, e comecei a retratá-la em momentos do
cotidiano: no banho, no elevador, no trânsito, assistindo TV, em encontros com
amigos......
Durante duas semanas
Verônica andou comigo no meu carro sentada ao meu lado. Chamava a atenção da maioria das pessoas que se
aproximavam, principalmente nos semáforos quando o carro estava parado. No
primeiro momento fixavam o olhar nela, acho que pela beleza, e depois, quando
percebiam que não se tratava de um humano faziam uma expressão de: “mas o quê é
isso?”
Como faço o mesmo caminho
todos os dias, alguns até já cumprimentavam Verônica e quando não a levei mais
comigo, essas pessoas me perguntavam onde estava a minha amiga.
Para
esse trabalho, selecionei imagens mais antigas de outros manequins além das que fiz da Verônica. Agrupei as imagens em uma
ordem cronológica de um dia .No começo do vídeo, as imagens possuem um desfoque
no rosto dos retratados para que, quando o espectador olhe, não consiga
determinar se é ou não humano, a mesma dúvida que as pessoas tinham ao vê-la
dentro do carro.
Usando o programa editor de imagens, também fiz algumas mesclagens de manequins
com retratos de amigos meus, para transmitir a ideia de que as pessoas hoje em dia muitas vezes se parecem com “bonecos”
desprovidos de emoções, onde os acontecimentos vividos em um dia não se tornam experiências de fato.
A trilha sonora foi
escolhida quase sem querer. Eu estava ouvindo rádio quando tocou “For What It’s Worth”. Gostei do ritmo e
da batida um pouco divertida, um pouco séria. Combinava bem com a minha
intenção de “enganar” o observador com os manequins/humanos. Ao
ver a tradução da letra, tive certeza que seria adequada: “alguma
coisa está acontecendo aqui (....) eu acho que é hora de pararmos.”
Acho que se encaixou
perfeitamente ao texto de Giorgio Agamben inserido no vídeo:
“o dia-a-dia do homem
contemporâneo não contém quase nada que seja ainda traduzível em experiência:
não a leitura do jornal, tão rica em notícias do que lhe diz respeito a uma
distância insuperável; não os minutos que passa, preso ao volante, em um
engarrafamento; não a viagem às regiões ínferas nos vagões do metrô nem a
manifestação que de repente bloqueia a rua (...). O homem moderno volta
para casa à noitinha extenuado por uma mixórdia de eventos - divertidos ou
maçantes, banais ou insólitos, agradáveis ou atrozes -, entretanto nenhum deles
se tornou experiência.”
[trecho extraído do livro Infância e
História: Destruição da Experiência e Origem da História, 2005, editora da
UFMG, p. 21-22].
Mona Lisa Locks
Projeto III - Suportes para Fotografia
Novo Hamburgo, 18 de novembro de 2013.




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